Resumo da fonte: Aos 38 anos, a primeira brasileira medalhista olímpica individual encerra carreira no judô para focar na maternidade e planeja futuro na gestão esportiva.
O caminho para Ketleyn Quadros é suave. Não por falta de desafios. Mas porque a judoca levou a carreira com muita leveza. O primeiro bronze olímpico veio aos 20 anos e já a colocou na história, como a primeira brasileira a conquistar uma medalha olímpica em um esporte individual. Esperou 16 anos para o segundo bronze, também um marco, o primeiro pódio por equipes do judô brasileiro em Jogos Olímpicos. Agora, aos 38 anos, ela deixa os tatames em busca da próxima conquista.
- Sim, eu tenho esse sonho de ser mãe. Então, se você perguntar minha próxima medalha olímpica, espero que seja a minha família - diz Ketleyn Quadros ao ge.
Ketleyn Quadros, do judô, com medalha de bronze olímpica — Foto: Paul Gilham/Getty Images
Ketleyn é casada com o também judoca Alex Pombo, atleta olímpico nos Jogos Rio 2016. Ela não lutou nas Olimpíadas em casa, também ficou fora de Londres 2012. Nada que tenha abalado a garota nascida em Ceilândia, no Distrito Federal, que além das medalhas olímpicas de Pequim 2008 e Paris 2024, ainda foi porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura de Tóquio 2020/2021.
E de sonho em sonho, ela deixa um legado. A menina que largou a natação para ir para o judô, deixou o DF para conquistar o mundo, tornou o sonho de mulheres possível em um esporte que até 1992 só permitia que homens competissem nos Jogos Olímpicos.
- Eu me sinto muito abençoada por Papai do Céu, por ele me escolher para ser essa pessoa que abre a porteira para que outras meninas tenham oportunidade. E eu acho que ele me escolheu muito por eu ter essa leveza de levar a vida, de levar o judô, porque se tornar a primeira é incrivelmente lindo. Nos tatames aumentou o número de mulheres. Eu, quando entrei, não sabia nem se mulher podia praticar. O que faltava era acreditar, ter investimento para que as mulheres pudessem realizar esse sonho - explica.
Ketleyn Quadros, do judô, com a mãe Rosimeire e a avó Marilda — Foto: Mayara Ananias/CBJ
ge - Chegou a hora de anunciar a aposentadoria?Ketleyn Quadros - São três décadas voltadas ao esporte, comecei bem cedinho no judô, então é quase a minha identidade, é tudo. Todas as minhas experiências foram através do judô, do esporte, conhecer pessoas, culturas, um mundo diferente. E, sim, chegou esse momento. Chegou esse momento de fechar esse ciclo competitivo. Porque judoca a gente nunca deixa de ser. Vai aposentar ou não? Não, porque eu não vou ficar em casa. Mas é um fechar de um ciclo muito vitorioso
O que a motivou a deixar os tatames?Eu sei que tem vários términos doídos, tem gente que se machuca, muitas vezes o corpo já não responde mais, às vezes é um stress, porque o alto rendimento exige muito. E graças a Deus comigo não é nenhuma dessas coisas. Zero cirurgias. Sou muito feliz. Eu amo muito judô. Se pudesse ficaria mil anos. Mas eu já consigo me enxergar construindo uma família. Eu admiro muito as mães judocas, as mães atletas, mas eu gostaria muito de poder viver intensamente igual vivi o judô, assim, para a minha família, para essa construção.
E viveu bem...Eu tenho duas medalhas olímpicas com 16 anos de diferença entre elas, uma em Pequim, onde eu me tornei a primeira mulher a conquistar uma medalha olímpica, e a segunda também inédita, em Paris, a nossa primeira medalha por equipe. Então eu só tenho mesmo que ser grata com essa trajetória feliz, brilhante. Eu trouxe essa leveza, esse verdadeiro significado de caminho suave, que é o judô.
Equipe de judô do Brasil medalha de bronze em Paris 2024. Em pé (esq. para dir.): Guilherme Schmidt, Leonardo Gonçalves, Bia Souza, Rafael Silva e Rafael Macedo. Agachados: Ketleyn Quadros, Willian Lima, Rafaela Silva, Daniel Cargnin e Larissa Pimenta — Foto: Miriam Jeske/COB
Quando decidiu parar ou ser mãe?Eu coloquei uma meta que fosse antes dos 40. Então está próximo. Quando eu voltei de Paris 2024, já pensando nessa possibilidade, que seria uma mãe mais experiente, eu já fiz meu congelamento de óvulos, para entender a minha parte hormonal, se era possível a gente esperar um pouquinho. Porque eu não queria passar por essa experiência toda junta com o judô, parar, ser mãe, entender como é que seria uma rotina mais em casa. Porque no judô a gente é assim, vive mais com os nossos amigos da seleção, é uma viagem atrás da outra, só vem, lava roupa e pega o quimono de novo. Sou muito de respeitar o processo de cada etapa.
E como vai ser a transição de carreira?Antes mesmo de Tóquio 2020/2021 eu já tinha pensado na minha transição de carreira. Eu fui para as Olimpíadas muito jovem, foi muito intenso. E eu queria viver esse momento novamente. Eu não sei o que que acontece, passa muito rápido. E aí foi Pequim 2008, mas não fui para Londres nem pro Rio, mas esses anos passaram tão rápido que eu nem percebi que teve essa lacuna, porque o foco era para ir para uma outra Olimpíada. Eu já tinha feito um curso que o COB disponibiliza, de transição de carreira. Em Tóquio eu poderia parar, se eu quisesse. Fui convidada para ser porta-bandeira do Brasil, inclusive a primeira mulher negra a ser porta-bandeira do Brasil. Então foi outro sonho. E ali, quando eu voltei, lembro de ter conversado com o meu marido, Alex Pombo, que também é atleta olímpico do judô. Eu falei: "Ó, tô bem, tô satisfeita. Se a gente quiser começar um outro negócio, fazer uma transição de fato, eu tô pronta". Aí ele falou: "Não, você está super bem, bem ranqueada, tá feliz e com saúde. Eu acho que você poderia continuar". Era o que eu queria também. Então ter um parceiro que sonha a mesma coisa que eu, que sabe como é que é essa vida de atleta, é super importante.
Bruninho e Ketleyn, porta-bandeiras do Brasil em Tóquio 2020 — Foto: Matthias Hangst/Getty Images
Sua mãe também foi importante?Eu lembro que quando eu fui para Belo Horizonte, bem nova, pro Minas Tênis Clube, uma das coisas que minha mãe exigiu foi sempre estudar. Então, eu demorei quase uns 8 anos para terminar minha faculdade de Educação Física, porque eu nunca conseguia fazer meus estágios. Mas minha mãe sempre falou: "Não quero saber, pode fazer uma matéria, duas matérias, eu não quero que você pare". E foi super importante. Eu não costumo tomar nenhuma atitude ou decisão no calor da emoção. E dentro de uns Jogos Olímpicos, com emoção super alta ou tristeza também, não ia definir. Falei com a minha "Liga da Justiça" --minha família, meus amigos, professores-- que me trouxe essa tranquilidade. A única coisa que eu que eu sinto falta é mesmo de estar com as meninas na resenha, conversando, viajando. Zero saudade da parte competitiva.
E não vai voltar para o judô?Ser membro da comissão de atletas do COB vem me proporcionando uma vivência em vários ambientes. Seja desde a parte de gestão, governança, contato direto com os atletas, sendo embaixadora dos Jogos da Juventude. A única coisa que eu não consigo me ver agora seria, por exemplo, uma técnica da seleção, porque seria viajar, seria viver a mesma vida do mesmo jeito. Mas eu amo as crianças, eu não tiraria essa possibilidade de, no futuro, ter um uma escolinha ou poder retribuir toda essa educação com as crianças, ser técnica na base. Se você me perguntar, agora, eu sim, eu gostaria de me ver futuramente numa parte de gestão, mas eu não descarto a parte técnica. Eu amo judô, eu amo o que eu faço e retribuir para o esporte é o sentimento que a gente tem quando vai encerrar, sabe? De devolver um pouquinho para aquele lugar que te deu tudo assim. Porque não tem como eu pegar 30 anos de uma experiência, de uma bagagem e guardar em uma caixinha e não usar.
Ketleyn Quadros e Bruninho serão os porta-bandeiras do Time Brasil em Tóquio
Você tem noção de tudo o que representa?Agora eu estou conseguindo ter essa dimensão maior, porque é bem difícil você sentir isso durante o processo. Por quê? Porque você não quer se acomodar com aquele resultado, você não quer estar satisfeita falando de resultado. Mas, eu me sinto assim muito abençoada por Papai do Céu, por ele me escolher, sabe, para fazer essa história assim, para ser essa pessoa que abre a porteira para que outras meninas tenham oportunidade. E tem tudo a ver comigo. E eu acho que ele escolheu muito por eu ter essa leveza de levar a vida, de levar o judô, porque se tornar a primeira é incrivelmente lindo. Nos tatames aumentou o número de mulheres. Quando eu entrei,não sabia nem se mulher podia praticar. A gente já entendia que o que faltava era acreditar em investimento para que essas mulheres pudessem realizar esse sonho. E ao olhar para trás no judô, eu fiquei muito feliz de poder honrar essas mulheres que treinaram numa época que não podiam. Hoje eu consigo ter um pouquinho mais da dimensão de que uma conquista assim, incrível, é um divisor de águas.
Falamos da sua mãe até você querer ser mãe... Sua referência é feminina?Sim. No esporte e em outras áreas, é muito da nossa união, é muito da construção uma da outra, é muito de quem chegou na época que só tinha capim para hoje a gente ter oportunidades. Sempre tive referências de mulheres fortíssimas dentro de casa, minha mãe, minhas tias, minha avó, que são assim as minhas principais referências no sentido de ocupar, de fazer as coisas que eu acredito, de confiar em mim. Então, tenho muito dessa parte feminina, sim. E apesar de ser um esporte individual, a gente está sempre ajudando todo mundo, está sempre acolhendo, principalmente porque passamos muito tempo fora de casa. Espero ter um pouquinho da experiência de todas essas mulheres com as quais eu convivi para me tornar uma mãe super acolhedora, apaixonada, que consegue levar essa leveza para a criança também, pra nossa família. Então, se você perguntar minha próxima medalha olímpica, espero que seja a minha família, é o que eu quero. Eu tô super feliz de fechar essa etapa da minha vida competitiva, mas jamais deixar de ser judoca, não tem como deixar. E ansiosa, uma ansiedade boa pros próximos passos, os próximos capítulos da minha história e da minha jornada. Estou pronta.
Ketleyn Quadros com a seleção feminina de judô do Brasil — Foto: Acervo pessoal
Data de nascimento: 1º de outubro de 1987 (38 anos) Local de nascimento: Ceilândia, Distrito FederalClube atual: Sogipa (RS)Medalhas olímpicas: bronze na categoria leve (-57 kg) em Pequim 2008 e bronze por equipes mistas em Paris 2024Medalhas em Mundial por equipe: uma prata e dois bronzes
Ketleyn Quadros deixa os tatames para ser mãe: "Minha próxima medalha olímpica"
Aos 38 anos, 1ª brasileira a conquistar medalha olímpica individual anuncia a aposentadoria, mas pretende continuar trabalhando no esporte, na gestão ou como técnica da base no judô
A entrada é gratuita e o evento será realizado na sede da Federação de Judô de Mato Grosso do Sul
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